Hoje a Natura utiliza 30% de PET reciclado nos frascos da linha Ekos. A empresa tem vários projetos para aumentar esse índice, mas há o desafio de melhorar a sua cadeia de produção no Brasil para uso em cosméticos
MARGARETH HAYASAKI
Com a expertise de quem abraçou o mundo Natura, cujas diretrizes são inovação e sustentabilidade, Luciana Villa Nova, gerente de desenvolvimento de produto e sustentabilidade da empresa, tece a sua retórica verde sobre os desafios do setor de embalagem para atender o universo dos cosméticos. Ela explica que a embalagem cumpre o importante papel de educar os consumidores e que o setor é o principal elo para a realização de práticas sustentáveis. “Quando os consumidores manuseiam o produto e percebem que ele foi projetado com menor desperdício de material de embalagem, com refil, e informações ambientais, eles têm um momento de consciência. Ou seja, eles passam a repensar suas atitudes”, acredita. Isso é o que mostram pesquisas de mercado recentes realizadas pela Natura. Segundo Luciana, as pessoas valorizam a marca, pois sabem que por trás dela existe uma empresa que respeita os consumidores e o meio ambiente. “Eles gostam de consumir Natura porque estão contribuindo para cuidar do planeta e a empresa está ensinando como fazer isso”, acentua.
Em entrevista à revista Pack, Luciana conta como a Natura alia a sua capacidade de inovação às práticas sustentáveis no desenvolvimento de embalagem.
PACK: A capacidade de inovação da Natura gerou vários exemplos de sucesso. De que forma a Natura antecipa as necessidades dos consumidores? E qual é o envolvimento dos fornecedores de embalagem para o êxito do projeto?
LUCIANA: Dentro das unidades de negócio da empresa, há uma área chamada consumo insight que visa a estudar o comportamento do consumidor. Quais são os seus hábitos de uso diário dos produtos? Como eles reagem às propostas de produto do mercado? Também realizamos muitas pesquisas com o consumidor na fase inicial do projeto, avaliando o mercado, a concorrência e os nossos produtos.
Essas pesquisas geram insights que nos ajudam a modelar o futuro de uma embalagem funcionalmente. O envolvimento dos fornecedores de embalagem acontece desde o começo do projeto de desenvolvimento de uma embalagem. Eles trazem muitas tendências de inovação, materiais, cores e efeitos, e novas tecnologias. E no momento que nós temos uma proposta de forma, os fornecedores de embalagem começam a atuar com a agência de design.
PACK: Como a Natura alia a capacidade de inovação às práticas de sustentabilidade no desenvolvimento das embalagens?
LUCIANA: Cada embalagem nova desenvolvida tem que ser menos impactante do que a embalagem que ela está substituindo ou que a média da categoria. Como a gente faz isso? Utilizamos, desde 2001 a técnica de análise de ciclo de vida (ACV) do produto. A Natura adquiriu um banco de dados internacionais de análise de impacto ambiental de cada matéria-prima, de cada resina, e de cada processo produtivo. Durante o processo de desenvolvimento do design, o engenheiro de embalagem calcula a quantidade de material que será utilizado e o impacto ambiental. Isso significa dizer que ele consegue mensurar com exatidão se a embalagem impacta mais ou menos no meio ambiente. Então, por exemplo, se o desejo é trazer mais sofisticação para a embalagem de cremes antissinais, o refil tem que ser cada vez mais simples, ou seja, utilizar menos massa de material, para ter menor impacto. Com o uso do ACV, a Natura reduziu o impacto ambiental médio das embalagens de 83,2 mpt/kg, em 2006, para 71,3 mpt/kg, em 2008.
PACK: A Natura é carbono neutro desde 2007. De lá para cá, como você avalia a evolução do programa?
LUCIANA: Em 2008, o projeto carbono neutro, programa responsável por reduzir emissões de gases de efeito estufa (CEEs) em 33% entre 2007 e 2011, atingiu a meta interna planejada e eliminou 3% das emissões, somando 9% em dois anos.
O índice que mais contribui para a emissão de carbono é o desenvolvimento de materiais de embalagem e matérias-primas, pois é nessa cadeia produtiva que há maior gasto de energia, e também a que mais trabalha com novos materiais, o que acaba emitindo muito CO2 para a atmosfera. E, por essa razão, é onde estão concentrados os esforços ambientais da Natura. Sabemos que do volume total, que em 2008, foi de 188.500 toneladas de CO2 equivalente, aproximadamente 38% é representado pela matéria-prima e material de embalagem, além de insumos de produto. Normalmente, quando se fala de carbono neutro, o cálculo contempla apenas o processo produtivo da empresa, mas a Natura decidiu fazer a cadeia expandida, contemplando, por exemplo, desde a produção de matéria-prima na comunidade que cultiva a planta e o fabricante de resinas plásticas. Trabalhamos para a evolução do programa. O ideal é que o engenheiro de embalagem tenha uma metodologia que permita calcular produto a produto, o quanto ele emite de carbono. Assim, antes mesmo de desenhar a embalagem, ele já sabe que ao combinar determinados materiais ou uma quantidade x de massa de embalagem, o impacto é maior ou menor.
PACK: Que outros aspectos são importantes no design da embalagem ou no redesign para maior sustentabilidade?
LUCIANA: Além da redução de massa de material, a Natura utiliza materiais reciclados e recicláveis na produção de suas embalagens. Os materiais de origem renovável também são empregados, como o papel cartão com selo FSC. Outro aspecto considerado no design da embalagem é a sua desmontabilidade para facilitar a reciclagem. O reuso é outro ponto valorizado no conceito do refil que estende o uso da embalagem na mão do consumidor. E, finalmente, permeando tudo isso, o uso de materiais de embalagem, que tem cadeia de reciclagem instalada no Brasil. Hoje a empresa consegue utilizar PET reciclado nas embalagens, mas não PP e PE, porque a coleta seletiva de resíduos sólidos é muito complexa no País e a indústria não está instalada para produzir esses materiais reciclados com qualidade. Esses polímeros são bastante empregados como subprodutos, mas não para serem úteis de novo, para uma embalagem de cosmético.
PACK: E os biopolímeros nos esforços sustentáveis da Natura?
LUCIANA: A quantidade disponível de biopolímeros no mercado ainda é restrita. Em parceria com universidades, a Natura realizou vários estudos nessa área, mas ainda não utiliza esses materiais na produção das embalagens. No setor de cosméticos, é bastante complicado, já que não existe uma resina adequada para conter esse produto. O grande desafio dos biopolímeros é a reciclabilidade.
PACK: Em sua opinião, qual é o papel dos fornecedores de embalagem e de máquinas para ajudar a Natura a atingir as metas ambientais?
LUCIANA: Eles são parte fundamental. Hoje, a Natura mobiliza os seus fornecedores de embalagens por meio de auditorias constantes, além de impor desafios para eles, propondo a criação de projetos de redução de carbono na sua própria cadeia produtiva. O papel dos fornecedores é importante também à medida que eles estão abertos às novas pesquisas, estudando novos materiais e tendências por meio de suas matrizes fora do Brasil. Dessa forma, eles trazem muito input para a Natura e representam o grande elo para reduzir o impacto ambiental. Então, sempre que se inicia um projeto de embalagem, os fornecedores recebem o briefing com uma proposta de redução de material ou uso de material reciclado. Ao atender os requisitos sustentáveis, eles recebem uma pontuação diferenciada e sabem que podem ganhar projetos, principalmente, entregando soluções inovadoras de sustentabilidade, Hoje, a Natura incentiva as agências de design de embalagem a pensar dessa forma. Será que a embalagem vai desperdiçar menos produto, menos material? Como vai ser o desenho do molde? E o ciclo da embalagem é lento, por isso vai gastar mais energia? Tudo isso é exaustivamente discutido no início do projeto.
PACK: Uma pesquisa realizada pelo grupo de publicidade francês Havas revelou que os consumidores têm consciência ambiental, mas não mudaram os seus hábitos de consumo. Como você vê isso no negócio da Natura?
LUCIANA: Um dos pilares da Natura é a educação. O objetivo da empresa é ser um veículo de educação por meio de seus produtos e embalagens. Um bom exemplo disso é a tabela ambiental com informações, como a quantidade de material de fonte renovável ou de material reciclado. Dessa forma, a empresa consegue despertar curiosidade nas consumidoras sobre os outros produtos. Como eles são feitos? E elas passam a fazer escolhas mais conscientes. Também estimulamos a consultora a vender o refil para as consumidoras, não somente porque o custo é mais baixo em 20% a 30% em comparação ao produto regular, mas porque vai gerar um questionamento: por que comprar uma embalagem nova, se eu posso usar uma com menos massa de material? Aos poucos, a Natura está levando educação ambiental sem ser daquela forma chata, ou seja, sem ser uma obrigação para as consumidoras. E isso tem que ser inerente às pessoas, pois ao cuidar do meio ambiente, elas estão cuidando delas. Também estamos estimulando as consultoras a fazer a logística reversa. O projeto piloto começou em 2008, em Recife (PE). As consultoras coletam as embalagens das consumidoras e de seu consumo próprio e devolve para a transportadora que entrega a caixa de produtos Natura. Todo o material coletado é levado para a cooperativa de reciclagem. Foi uma iniciativa do nosso fornecedor e a Natura apoiou. Além de ajudar na reciclagem das embalagens, as consultoras sabem que estão ajudando socialmente um grupo de pessoas carentes que vivem disso. É esse tipo de consciência que a Natura quer despertar nas consumidoras para que elas façam a sua parte no dia a dia.
PACK: O projeto de logística reversa vai ser implantado em outros estados?
LUCIANA: Estamos estudando um modelo, já que existe a complexidade de criar coleta seletiva e cadeias de reciclagem. O projeto começa a ser implantado em São Paulo, pois é um grande produtor de resíduos e oferece estrutura para tal. Algumas regiões já estão testando o modelo, com o apoio forte das cooperativas de reciclagem. Ainda há muitos erros e acertos, mas o projeto está caminhando.
PACK: Você falou do PET reciclado. Ele é utilizado em quais linhas de produto?
LUCIANA: Hoje 30% de PET reciclado são utilizados nas embalagens da linha Ekos. Gostaríamos de usar muito mais. Existe uma série de projetos para aumentar esse índice, mas temos o desafio de melhorar a cadeia de produção do PET reciclado no Brasil. Isso começa na coleta seletiva. Como esse PET vai para a cooperativa de reciclagem? Como ele é trabalhado na cooperativa? Como ele é processado industrialmente? O nível de qualidade do processo de reciclagem de PET no Brasil ainda é baixo para aplicação em embalagens de cosméticos, pois é preciso uma resina mais purificada. Além da certeza de que o material não veio do lixão ou do aterro sanitário, pois a Natura, pela questão social, faz questão de trabalhar com materiais separados pela cooperativa de reciclagem. E isso aumenta bastante a complexidade de uma cadeia. Estamos construindo a cadeia de reciclagem desse material, desde 2007, em parceria com a Bahia PET e a rede Cata Bahia. Toda essa cadeia passa por um processo de auditoria para a gente ter certeza de que está conseguindo implantar um processo de qualidade máxima. No entanto, ainda não conseguimos utilizar 50 a 100% de PET reciclado com qualidade, pois a resina fica muito frágil, com pouca resistência, escura e o produto perde o apelo da beleza. E o frasco da linha Ekos, que transmite a biodiversidade brasileira e as cores do País por meio dos produtos e das fórmulas, exige uma embalagem transparente. Lá fora existem frascos de PET usando 50 e 70% de material reciclado de altíssima qualidade graças ao processo industrial que atingiu o nível de excelência. Em 2008, a Natura realizou um grande projeto, que contemplou pesquisas na Europa e visitas a vários centros de reciclagem de PET para entender como era o processamento do material, desde a coleta até a reciclagem. A Natura trouxe o conceito para o Brasil para que os nossos parceiros começassem a trabalhar. A meta é chegar, no mínimo, à utilização de 50% de PET reciclado. Esse é o primeiro desafio que a empresa está se colocando, com prazo de dois anos para cumprir. Nós queremos evoluir constantemente essa meta. Ainda não dá para fazer 100% de material reciclado, mas estamos desafiando os nossos fornecedores a chegar nisso.
PACK: E há outros desafios sustentáveis para o setor de embalagem de cosméticos?
LUCIANA: O vidro de perfumaria é bastante complicado, já que ele não é um vidro de garrafa de cerveja, que pode ter um nível de qualidade inferior. É difícil porque nem nos países de primeiro mundo, o vídeo reciclado para cosmético não é bem desenvolvido. A reciclagem do PP e do PE vai para uma cadeia mais baixa de valor porque o processo de reciclagem é complexo, ou seja, é mais físico, que não permite a purificação das resinas. Sem uma boa separação do material contaminado, podemos contaminar o nosso produto. O maior problema reside na cadeia de coleta seletiva. É preciso ter certeza que os frascos de pesticidas estão retornando para a cadeia de reciclagem desses produtos. Mas o salto de excelência se dará mesmo é com o lançamento de uma embalagem feita de biopolímero. Esse seria o mundo ideal, mas a Natura ainda está buscando. E a ciência e a tecnologia também estão correndo atrás.
PACK: Há novidades sustentáveis a caminho?
LUCIANA: Sim. Mas ainda são projetos confidenciais. Eles devem chegar ao mercado em 2010 e 2011.
Pack
Janeiro de 2010